terça-feira, 28 de julho de 2015

1977 - A VEZ DO GRÊMIO

1976. A chegada do técnico Telê Santana em setembro, depois de uma tentativa inicial infrutífera dos dirigentes do Grêmio, dava a entender que a temporada do ano seguinte estaria bem encaminhada. E estava mesmo.
 
O Grêmio tinha fama de bom pagador. Assim, não foi difícil trazer jogadores experientes e de retrospecto positivo, e com eles formar uma boa equipe. O professor Ithon Fritzen, um gaúcho da cidade de Campo Bom, cuidaria da preparação física. O objetivo inicial era impedir que o colorado fosse enea – lê-se ênea – campeão gaúcho, em 1977.

Indicado pelo, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Almirante Heleno Nunes, e com salários atrasados no Flamengo, o meia Tadeu Ricci foi contratado. Em seguida veio o lateral direito Eurico, dispensado pelo Palmeiras que preferiu apostar em Rosemiro, oriundo do Clube do Remo (PA).  Yura, um ótimo e dedicado meia-direita, prata da casa, marginalizado em temporadas anteriores, nem imaginava que seria um dos jogadores mais importantes no esquema de Telê que tinha planos para ele.
“Ele mostrou que era preciso ser profissional. Antes, nós não tínhamos direito a discutir nada, era tudo de cima para baixo. E aí chegou o Telê e modificou tudo, começou a conversação, o Telê dava liberdade.” [Júlio Titow, o Yura]1

Contratado pelo Grêmio em 1973, após ter sido observado no campeonato brasileiro do ano anterior, mais especificamente no jogo do Internacional contra o América (GB)2, e tendo marcado o único gol do jogo, Tarciso disse certa vez, após uma derrota em Gre-Nal, que não aguentava mais perder para o Internacional. Ele que era meia de origem, fora sacrificado durante quatro anos no Grêmio jogando como centroavante. Agora, Telê Santana que enxergava o que a maioria não via, queria aproveitá-lo como ponta-direita. A partir do desempenho, acima da expectativa, de Tarciso na posição, o intrépido narrador Haroldo de Souza, na época trabalhando na Rádio Gaúcha, imortalizou o atleta, chamando-o de “o flecha-negra”, como é hoje conhecido.
Atílio Genaro Ancheta Weiguel fora escolhido o melhor zagueiro da Copa do Mundo, em 1970. O Grêmio o contratou no ano seguinte com o objetivo de agregar qualidade ao grupo que tentaria quebrar a hegemonia do Internacional nos gramados gaúchos. O Inter não se deixou abater e respondeu alguns meses depois com Elias Ricardo Figueroa Brander, mantendo seu ciclo de vitórias.

Após seis anos de derrotas, Ancheta queria ir embora. Os dirigentes gremistas não concordaram e resolveram apostar nele, no Tarciso e no Yura para a temporada de 1977. O técnico Telê saberia o que fazer dali em diante.
1977, 3 de abril. Foi contra o Guarany, em Bagé, que eu vi esse time jogar pela primeira vez. E já estava ajustado, com o Yura, antes acostumado a jogar por todo o campo, desempenhando uma nova função. O Grêmio do Telê era diferente de tudo o que eu tinha visto. Quando o time atacava, avançavam, ao mesmo tempo e com velocidade, os dois zagueiros e os dois laterais. Eles se juntavam aos atacantes, enquanto a defesa ficava guarnecida por dois volantes: o Vitor Hugo pelo meio, e o Yura, como o homem mais recuado, também pelo meio, mas apto a interceptar um contra-ataque tanto do lado direito, quanto do lado esquerdo.

E pensando todas as jogadas do Grêmio havia um craque, o Tadeu Ricci. Para quem o não viu jogar, digamos que ele foi uma das principais estrelas do Flamengo nos tempos de Júnior e Zico, onde jogou até 1976.
O ataque tricolor ainda não estava bem configurado: André, o André Catimba, que mais tarde seria decisivo para a conquista do Campeonato Gaúcho de 1977, ainda jogava no Guarani [de Campinas]; Alcindo, o veterano centroavante das vitoriosas jornadas dos 60’s, só estrearia contra o Riograndense [de Santa Maria], uns dias mais tarde. Assim, o trio de atacantes formou, em Bagé, com Zequinha, Tarciso e Éder.

Zequinha, um ponta direita com grande habilidade técnica, contratado ao Botafogo, em 1974, também era um dos remanescentes do Grêmio dos “intermináveis” fracassos diante do Internacional. Ainda assim, era um ótimo atleta para as pretensões do tricolor da Azenha.
Éder era um ponta esquerda promissor, com um chute forte - tão forte e tão certeiro como o do Rivelino -, revelado pelo América Mineiro, em 1976, então com 19 anos de idade, e observado por Telê Santana que o indicou para o Grêmio.

Enquanto isso, Tarciso ainda estava fazendo de conta que era centroavante.
O primeiro Gre-Nal dessa equipe, em 17 de abril, serviu para mostrar que a defesa formada pelos experientes Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho, estava pronta para enfrentar qualquer adversário.

Oberdan foi a primeira contratação do Grêmio para 1977. A ideia partiu do Dr. Nelson Olmedo, vice-presidente de futebol. No ano anterior, assistindo a um tape do jogo Coritiba 1 x 0 Internacional (30/10/1976), observou que todas as bolas levantadas para a área do Coritiba foram cabeceadas pelo Oberdan, que venceu todos os supostos duelos com o Escurinho, exímio cabeceador colorado. Então, sem ninguém saber, Olmedo foi a Curitiba para contratar o cara que até já havia largado o futebol.
“... . Esse foi o homem que botou o dedo na cara do Escurinho e disse: ‘– Nunca mais vocês vão fazer gol de cabeça enquanto eu jogar.’ E foi verdade.” [Hélio Dourado]3

O Ladinho foi indicado para o Grêmio através de uma ligação telefônica.
“Eu estava no Rio fazendo a transação do Tadeu Ricci e o Grêmio foi jogar uma partida em Curitiba, ..., quando o Afonso Gobbi me ligou...: ‘- Me falaram do Ladinho, lateral do Atlético Paranaense!’. Quando ele falou em Ladinho eu lembrei que tinha visto o Ladinho jogar duas ou três vezes e tinha me chamado a atenção.” [Nelson Olmedo]4

É bem provável que a relação entre o goleiro Walter Corbo e o Peñarol estivesse estremecida em 19 de janeiro de 1977, quando o Grêmio foi a Montevideo jogar um amistoso contra a seleção do Uruguay, onde ele também atuava. Corbo procurou os dirigentes do clube gaúcho no Hotel e alinhavou, com o Dr. Nelson Olmedo, a sua contratação.
Pronto. Estaria assim formada uma equipe competitiva, não só capaz de enfrentar, de igual para igual, o gigante colorado, mas também apta a impor sua técnica diante de todas as outras grandes equipes do futebol brasileiro e orgulhar a sua torcida e o seu presidente – um dos maiores da história do Grêmio -, o Dr. Hélio Dourado.

O campeonato gaúcho seria só o aperitivo.
 
Referências:
I) [1, 3 e 4] OSTERMANN, Ruy Carlos. Até a Pé Nós Iremos; p. 144-155.
II) [2] “Pela Lei complementar número 20, de 1 de julho de 1974, durante a presidência do general Ernesto Geisel, decidiu-se realizar a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, a partir de 15 de março de 1975, mantendo a denominação de estado do Rio de Janeiro,...” - https://pt.wikipedia.org/wiki/Guanabara.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

CEMITÉRIO DE BUQUES

Porto de Montevideo, 2015. Assim esquecidos, barcos em desuso - cerca de uma dúzia - descansam nas posições em que foram abandonados há bastante tempo, quiçá, alguns há décadas. 





Rombos não desprezíveis nos compartimentos abaixo da linha d'água vão causando, aos poucos, o desnivelamento das embarcações. Pelo menos dois buques, do conjunto observado, estão adernados em cerca de 45 graus. O tempo se encarregará de piorar o cenário.


Fotos: O Século XX
    

terça-feira, 14 de julho de 2015

TERREMOTO NA COSTA OESTE DA AMÉRICA DO NORTE


“Comece a correr quando os cães começarem a latir. Fuja a pé, pois as estradas vão sumir do mapa.”. Assim recomendam os geógrafos, referindo-se a um provável terremoto que poderá atingir a costa oeste da América do Norte, desde o Cabo Mendocino, na Califórnia, até a ilha de Vancouver, na Colúmbia Britânica (Canadá).


O terremoto, previsto para 9 graus na escala Richter, se ocorresse agora, viria com um atraso de 72 anos e geraria um tsunami com ondas que chegariam a 60 metros de altura.

Especialistas da área dizem que as pessoas têm 20 minutos para fugir – ou seja, melhor ficar onde estão - quando a placa Juan de Fuca, que abrange 700 milhas de oceano, deslizar sob a região.

O inútil alerta vale para a população litorânea da Califórnia, do Oregon e de Washington (Estados Unidos) e da Colúmbia Britânica (Canadá).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

TANGO AO MEIO-DIA

2015, 10 de fevereiro. Descubram os porteños de La Boca que turistas de quaisquer lugares do mundo passeiam nas proximidades de seus domínios, e lá estão eles a demonstrar que o tango é uma das principais referências culturais em Buenos Aires.




 
Aqui, em horário de almoço, um jovem casal de trabalhadores de uma pizzaria-café, localizada na esquina da [calle] Garibaldi com Gregório Aráoz de Lamadrid, utiliza-se desse expediente com perfeita desenvoltura para atrair clientes.

Imagens: O Século XX

domingo, 15 de março de 2015

SPEED RACER

Exibido na TV brasileira a partir da primeira metade dos 70's, aos finais de tarde, em dias alternados, Speed Racer fez parte da infância dos cinquentões e cinquentonas de hoje.

A Fábrica de Lembranças traz uma descrição completa a respeito desse desenho, que eu acredito ser, de todos, o mais famoso da época.

Fonte Fábrica de Lembranças

quarta-feira, 11 de março de 2015

BOND GIRL

2015, 23 de outubro – Lançamento [no Reino Unido e na Irlanda] de "Spectre", o 24º filme da história do agente secreto James Bond, no qual Daniel Craig interpreta o agente da MI6 pela quarta vez. 

A novidade boa é a presença da atriz Stephanie Sigman (Ciudad Obregón/Mexico, 1987), indicada para o Oscar por sua interpretação em Miss Bala (2011). Ela é uma das bond girls da trama, juntando-se à francesa Léa Seydoux (Passy/Paris/France, 01/07/1985) e à italiana Monica Bellucci (Città di Castello/Italia, 30/09/1964).

 



sexta-feira, 6 de março de 2015

ACOLHIDA AOS CALOUROS DA BIOLOGIA - UFPEL, I SEMESTRE/2015

2015, 06 de março - sexta-feira, 14:30 h. Alunos do terceiro semestre do curso de Biologia (figs. 1, 2 e 3) da UFPel aguardam, à sombra das árvores - sensação térmica: 28ºC - a liberação dos seus calouros que estão em aula em um prédio próximo dali. 
Fig. 1
O objetivo é dar as boas vindas aos novos colegas e, desde já, deixá-los à vontade junto aos..., digamos, veteranos do curso.
Fig. 2

Fig. 3
Aqui, já devidamente "decorados" com pintura no rosto em diversas cores, os novos alunos posam para os registros fotográficos de praxe (figs. 4, 5 e 6).
Fig. 4

Fig. 5

Fig. 6
Com exclusividade para O Século XX, calouros (os pintados) e veteranos (os de jaleco) do curso acenam para a posteridade (fig. 7). Daqui a alguns ou muitos anos vão analisar a foto e, quiçaz, nem vão se reconhecer. Ao mesmo tempo vão tentar identificar a maioria dos colegas, pensando: "¿Por onde anda o(a)...?"  
Fig. 7

MARILYN PARA SEMPRE

2015, 10/15 de março. Fotografada por Bert Stern (New York, 03/10/1929 - New York, 26/06/2013) para a revista Vogue em junho de 1962, a beleza de Marilyn Monroe (Los Angeles, 01/06/1926 - Brentwood/Los Angeles, 05/08/1962) resplandece novamente através dessa série de fotografias, as quais serão destinadas a leilão pela Heritage Auctions Texas.

Abaixo, uma amostra grátis.
photo: Bert Stern
O valor estimado, por impressão, é de 4.000 libras-esterlinas - cerca de R$ 18.400,oo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

MULHERES & DOCES III

2015, 12 de fevereiro. Sem saber que estava sendo clicada, uma turista brasileira exibe um comportamento um tanto anormal diante da vitrine de uma confeitaria em Montevideo, Uruguay. Desesperou-se a mesma diante de tantos doces exibidos pelo estabelecimento. Depois, provavelmente, não resistiu à tentação e devorou alguns.
Fig. 1
Em seguida, alcançada e alertada pelo fotógrafo de O Século XX, autorizou a publicação do flagrante (figura 1), desde que mantivéssemos em segredo sua identidade e, aí sim, posou, feliz, para outro registro fotográfico diante da mesma loja (figura 2).
Fig. 2

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

¿QUEM GOSTA DE TOMAR CAFÉ RUIM?

Em obediência cega à Lei Federal 8.666, desde 21 de junho de 1993, as instituições públicas têm que se contentar com bens de consumo, bens permanentes e serviços oferecidos pelo menor preço possível, o que, na maioria das vezes, implica a aceitação de produtos e serviços de baixa categoria. Cuidados na hora de elaborar os termos de referência dos pedidos, inserindo exigências e características de bens e serviços, nem sempre obtêm sucesso, uma vez que muitos materiais de qualidade duvidosa se equiparam em descrição técnica - porém não em qualidade técnica - ao procurado.

Desse modo acabam os órgãos públicos adquirindo grandes porcarias em se tratando de bens e assinando contratos de serviços [muitas vezes] não satisfatórios.

Tomemos como exemplo um bem de consumo bem simples, utilizado pela maioria dos trabalhadores brasileiros como forma de estímulo à rotina de trabalho: o cafezinho.

A imagem [borrada de propósito], acima, apresenta dois tipos de café adquiridos por uma instituição pública [do sul do Rio Grande do Sul] para consumo interno. Não seria preciso dizer que ambos os produtos são de péssima qualidade, uma vez que o assunto aqui é apontar e exemplificar uma mercadoria ruim, comprada pelo menor preço - é verdade -, mas com uma qualidade muito abaixo da esperada. E não têm nem cheiro de café.

¿Quem gosta de tomar café ruim?



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

FUGINDO DO INFERNO

2015, 13 de janeiro. Registro oficial da temperatura na região de Pelotas, RS, às 15:05 h: 32.1ºC, com sensação térmica de 37.2ºC. Temperatura boa para quem está na praia, mas proibitiva para trabalhar ao ar livre e sob o sol.
Este aí é o Negrão. Ele deu um jeito de resolver o problema e, alheio ao movimento, descansa no corredor do recinto, aguardando a hora propícia para voltar para a rua.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A ORIGEM DO CONCRETO ARMADO

As Termas de Caracalla foram resultado de uma ambiciosa política de obras impostas pelo imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (188 - 217), mais conhecido como Caracalla - que na realidade é o nome de um manto gaulês com capuz, usado por ele. Construídas entre os anos 212 e 217, as tais termas são o primeiro exemplo que se conhece de associação de barras metálicas a pedras ou argamassa com a finalidade de aumentar a resistência das construções.

Fig. 1 - Termas de Caracalla
A partir dos primórdios do século XV, durante a recuperação das ruínas dessas termas, descobriram-se barras de bronze dentro da argamassa de pozzolana - rocha de origem vulcânica constituída por uma mistura de areia, argila e silte - em estruturas que, sem apoio, cobriam distâncias muito grandes para a época. Muitos anos depois, entre 1764 e 1790, a associação aço/pedra natural foi utilizada pelo arquiteto Jean-Baptiste Rondelet (1743 - 1829) na construção da estrutura da Igreja de Santa Genoveva, em Paris, hoje chamada Panthéon de Paris.
Fig. 2 - projeto arquitetônico da Igreja de Santa Genoveva
 Concebido pelo [também] arquiteto Jacques Germain Soufflot (1713 - 1780), o projeto da igreja previa poucas colunas na fachada, segundo ele "para agregar a leveza do gótico com a pureza da arquitetura grega". Assim, havia a necessidade de executar grandes vigas com o objetivo de transferir as elevadas cargas da superestrutura para as fundações.

Rondelet utilizou barras longitudinais retas nas zonas de tração e barras transversais para evitar o cisalhamento - tensão gerada por forças perpendiculares à maior dimensão de uma estrutura, que incidem na mesma direção, mas em sentidos opostos - nas vigas executadas com pedra lavrada. As barras eram enfiadas através de furos feitos [artesanalmente] nas pedras, e os espaços vazios eram preenchidos com argamassa de cal. Não faltaram nem as barras dobradas - barras longitudinais dobradas entre 30 e 45 graus para absorver os esforços de cisalhamento das estruturas, adotadas em projetos de engenharia até meados da década de 1960. Pronto! Deu-se por inventada a conjunção ferro/pedra para a execução de estruturas.

Em 1824, portanto passados 34 anos do término da obra pioneira, o empresário Joseph Aspdin (1778 - 1855) fez algumas experiências utilizando misturas de pó de pedra calcária e argila, as quais eram queimadas e depois moídas. Aos materiais obtidos dessas misturas eram acrescentadas quantidades experimentais de água, e o resultado vinha sob a forma de um certo tipo de argamassa que depois de seca ficava dura como pedra. O produto final era parecido com um tipo de rocha encontrado na ilha britânica de Portland, semelhante, inclusive em resistência e durabilidade. Aspdin patenteou o produto com o nome de Cimento Portland.

Cerca de 20 anos depois, Isaac Charles Jonhson (1811 - 1911) começou estudos relacionados ao processo da queima da mistura inventada por Aspdin. Elevou a temperatura para 1400ºC e obteve, após a moagem, um produto mais fino e mais resistente que os anteriores.

Por volta de 1850 o engenheiro francês Joseph Louis Lambot (1814 - 1887) efetuou suas primeiras experiências práticas no que diz respeito à introdução de ferragens  em massas de cimento. A suposição baseia-se no registro da data de uma obra sua nas Forjarias Carcès - estabelecimento localizado na comunidade de Carcès, departamento de Var, sul da França - onde foi construída uma parede de argamassa armada com grande número de barras [finas] de ferro. Mas antes, em 1849, ele já estava construindo um barco feito de "cimento armado" que não só flutuou, como navegou no lago de sua propriedade em Miraval, departamento de Var, no sul da França. É provável que tenha usado uma malha de barras finas de ferro entrelaçadas, entremeadas com barras mais grossas, usando essa malha como gabarito para obter o formato adequado para o barco.

O barco de Lambot foi por ele apresentado, juntamente com um pedido de patente, na Exposição Universal de Paris de 1855. Ele imaginava que seu barco [de cimento armado] chamaria muito mais atenção do público do que o normal, garantindo então mais oportunidades para usar o tal cimento armado em obras. Porém seu objetivo não foi atingido, uma vez que ninguém considerou ser de alguma valia a sua invenção. O uso do cimento armado para a construção de navios foi descartado pelos funcionários da Administração da Marinha de Toulon por considerarem inadequado o novo material.
Fig. 3 - Barco de Lambot (1849)



Entretanto, entre os visitantes da exposição, estava um comerciante de plantas ornamentais, horticultor e paisagista, que não dava a mínima importância para regulamentos ou normas técnicas, principais observações dos engenheiros. Ele enxergava o barco de Lambot com outros olhos. Seu nome era Joseph Monier (1823 - 1906).

Monier tinha grandes problemas com as caixas de madeira ou cerâmica onde, em estufas, acomodava as laranjeiras em crescimento durante o inverno. Em contato com a terra úmida, as caixas quebravam ou apodreciam rapidamente. Ao ver o barco de cimento armado, imaginou que o material utilizado para construí-lo serviria para fazer suas caixas de terra. Provavelmente não teria pensado nisso se, ao invés de se deparar com um barco, tivesse visto, por exemplo, uma laje.

Lambot, apesar de ser engenheiro, não foi convincente em suas argumentações junto às associações de normas técnicas da época; Monier, por outro lado, sem a pretensão de convencer ninguém, aproveitou a ideia de Lambot e passou a construir suas caixas de plantas de cimento armado, do que jeito que melhor lhe parecia ficar. Com as malhas de ferro dava os formatos que queria às suas caixas e vasos e, com cimento, preenchia os espaços e efetuava o cobrimento da armadura.

Monier produziu, utilizou e vendeu [em vários formatos e tamanhos] grande quantidade dos seus vasos e caixas de cimento armado. Gostou tanto dessa atividade que desistiu de ser paisagista, horticultor e comerciante de plantas ornamentais, para se dedicar à nova arte. Imaginou que todas as peças fabricadas com esse material deveriam ter a finalidade específica de entrar em contato com a água. Assim, seus primeiros artefatos de cimento foram bacias, caixas d'água e tubos para encanamentos. Entre 1868 e 1873 construiu: um reservatório de 25 m³; um reservatório de 180 m³ para a estação da estrada de ferro de Alençon; um reservatório de 200 m³ [suportado por pilares] em Nogent-sur-Marne.

Em 1875 construiu uma ponte de 16,5 metros da vão e 4,0 metros de largura nas propriedades do Marquês de Tillière. A partir de então, atento aos negócios, começou  a registrar patentes de tudo o que fazia, expandindo seu trabalho de construção em cimento armado para outros países da Europa, passando a ser considerado como o inventor do concreto armado. Na Alemanha o termo Monierbau é, ainda hoje, sinônimo de Concreto Armado.
Fig. 4 - Primeira ponte construída [por Joseph Monier] em cimento armado, imitando aparência de troncos e ramificações de árvores

Na América, quase à época em que Lambot patenteava seu barco, um advogado dotado de grande capacidade inventiva, também fazia suas experiências, mostrando-as a um reduzido círculo de amigos. Só mais tarde, em 1877, Thaddeus Hyatt (1816 - 1901) publicou seus ensaios, com um título que mais parece título de tese de mestrado ou doutorado: "An Account of Some Experiments with Portland-Cement-Concrete, Combined with Iron as a Building Material with Reference to Economy of Construction and for Security Against Fire in the Making of Roofs, Floors and Walking Surfaces".

Hyatt conseguiu decifrar o verdadeiro papel da armadura no trabalho com o concreto, enxergando a composição ferro/concreto como uma peça única e compreendendo a necessidade de uma armadura transversal muito bem ancorada, tal como o atual estado de conhecimento sobre concreto determina em norma.

De seus ensaios Hyatt obteve as seguintes conclusões:
  • O concreto deve ser considerado como um material de construção resistente ao fogo;
  • Para que a resistência ao fogo possa ser garantida, o ferro deve estar totalmente envolvido por concreto;
  • O funcionamento em conjunto do concreto com ferro chato ou redondo é perfeito e constitui uma solução mais econômica do que com o uso de perfis "I" como armadura;
  • O coeficiente de dilatação térmica dos dois materiais é suficientemente igual;
  • A relação dos módulos de elasticidade deve ser adotada igual a 20;
  • Concreto com ferro do lado tracionado presta-se não somente para estruturas de edificações como também para construções de abrigos.
Thaddeus Hyatt foi o primeiro a compreender profundamente a necessidade de uma boa aderência entre o concreto e o ferro, bem como do posicionamento correto das barras de ferro para que este material fosse eficaz na obtenção da resistência do produto final. Portanto, Hyatt foi, de fato, o grande precursor do concreto armado da forma como hoje o conhecemos.
Fig. 5 - Vigas de ensaio de Hyatt, com indicação das armaduras e das trincas

Na Alemanha o engenheiro alemão Gustav Adolph Wayss (1851 - 1917) obteve as patentes de Monier, compradas anteriormente [em 1884] pelas firmas Freytag e Heidschuch e Martenstein e Josseaux. Seu entusiasmo originou-se de uma visita à Exposição Universal de Antuérpia, em 1879, quando viu as peças de concreto construídas pelo engenheiro francês François Hennebique (1842 - 1921). O primeiro passo de Wayss foi fundar em Berlin a empresa "Aktiengesellschaft für Beton - und Monierbau". Porém, o novo processo construtivo despertou incertezas e desconfianças, levando-o a investir muitos recursos em ensaios para demonstrar, mediante provas de carga, que existiam vantagens econômicas na utilização de armaduras de ferro dentro do concreto. O órgão público de fiscalização designou, então, o engenheiro Mathias Koenen (1849 - 1924) para conduzir os ensaios de corpos de prova, e ele concluiu que a função da armadura de ferro era absorver as tensões de tração, enquanto o concreto [sozinho] resistia às compressões. Estavam, portanto, elucidadas as dúvidas sobre a eficácia das construções em concreto armado, e daí para frente os estudos na área foram crescendo em escala exponencial.

A primeira obra em concreto armado no Brasil foi uma ponte de 9,0 metros de vão, projetada pelo engenheiro François Hennebique e executada pelo empreiteiro Echeverria, no Rio de Janeiro, em 1908.

Fig.1 - http://escola.britannica.com.br/assembly/172961/Ruinas-das-Termas-de-Caracalla-um-complexo-de-banhos-publicos
Fig.2 - http://historiadeartemartab.blogspot.com.br/2010/11/arquitectura-neoclassica.html
Fig.3 - http://www.expositions-universelles.fr/1855-exposition-universelle-paris.html
Fig.4 - http://aquarius.ime.eb.br/~webde2/prof/ethomaz/monier/monier_parte1.pdf
Fig.5 - http://www.ebah.com.br/content/ABAAABi3IAH/2010-tfc-juliano-ricardo

Bibliografia: SANTOS, Lauro Modesto dos. CÁLCULO DE CONCRETO ARMADO. P.37 - 46.




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PANELA DO CANDAL - BAGÉ, RS

A Panela do Candal - desconheço a origem do nome - seria um lugar magnífico se não fosse o estrago ambiental causado pela nossa própria população ao longo do tempo.

Pela lógica, as nascentes dos rios são livres de poluição, o que não é o caso do nosso Arroio Bagé, nascente do Rio Negro que é o principal rio do Uruguay e atravessa todo o país vizinho - desde a província de Cerro Largo até a junção das províncias Rio Negro e Soriano, como se fosse um traço reto de nordeste a sudoeste. Depois, desemboca no Rio Uruguai/Uruguay que por sua vez deságua no Rio de la Plata e, por fim, tudo acaba no Oceano Atlântico.
Vista [Google Earth] da Panela do Candal, sobre a ponte da Rua Emílio Guilain - Bagé, RS
Em resumo, muitos dos coliformus restartuais pignomentrais sódium bajeenses - "bajeenses" com "J" mesmo, porque, segundo os letrados, é assim que se escreve o nome gentílico de quem nasce [ou mora] na cidade de Bagé - vão parar em Punta del Este. Olha só que glamour!

sábado, 8 de novembro de 2014

TIM MAIA, O FILME

Tim Maia, o  filme, baseado no livro "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelson Motta, na minha opinião, não retrata, de verdade, a vida do cara. Não que o filme seja ruim! Pelo contrário, é muito bom! Mas a história do Tim - descrita por Nelson Motta - é tão rica em detalhes que seria difícil retratá-la com fidelidade em apenas duas horas e vinte minutos.

Apesar de, assistindo o filme, ter me emocionado com as lembranças que eu tinha do cantor/compositor e do talento e genialidade do cara e das coisas que ele aprontava, não consegui me convencer com a performance do ator Babu Santana que o representou na fase adulta. Não deu liga. Faltou alguma coisa que eu não sei o que é. Talvez porque Tim Maia seja incomparável e inimitável.

Incomparável e inimitável, o Tim Maia de verdade era este aí.

YouTube/Filipe Zingano

P.S.: O "Roberto Carlos" (George Sauma)" e o "Carlos Imperial" (Luís Lobianco) também não convenceram. Aliás, foram péssimos.

  

O APOCALIPSE SEGUNDO VLADIMIR MANJUKHIN

2012, 21 de dezembro. Segundo algumas crenças populares baseadas no calendário maia, nessa data acontecimentos catastróficos abalariam o planeta Terra, transformando o mundo que conhecemos em ruínas. Os sobreviventes seriam os "escolhidos", considerados como pessoas espiritualmente preparadas para iniciar uma nova era.

Foi, talvez, pensando nisso que o designer russo Vladímir Manjukhin resolveu usar, através da computação gráfica, uma combinação de fotos de prédios  parcialmente destruídos [de lugares diversos] e imagens turísticas de Moscou.

O resultado do trabalho do famoso artista, mais conhecido pelo apelido mvn78, foi apresentado [em 2012] na Gazeta Russa como "Moscou Após O Apocalipse". Confira as imagens, abaixo.














segunda-feira, 3 de novembro de 2014

UM CASAMENTO REAL

1947, 20 de novembro. Da sacada do Palácio de Buckingham, em Londres, o Príncipe Philip - Duque de Edimburgo - e a Princesa Elizabeth - hoje Rainha Elizabeth II - logo após a cerimônia do seu casamento, saúdam a multidão que desde a noite do dia anterior aguardara junto às calçadas das ruas de Londres, ao longo do [que seria o] caminho do cortejo real, o desenrolar da cerimônia.
Da esquerda para a direita: o Rei George VI, a Princesa Margaret, Lady Mary Cambridge, a noiva e o noivo, a Rainha Elizabeth e a Rainha Mary (viúva do Rei George V).
Uma multidão muito animada enfrentou uma temperatura não muito fria - ainda bem - durante a madrugada do dia 20 de novembro, aguardando, ansiosa, a manhã de quinta-feira. O casamento ocorreria às 11:30 h e o desfile real, logo após.
Fotos: Associated Press